sábado, 15 de novembro de 2025

Iceberg

    Vai partindo devagar, como iceberg que se despede do continente,
eu vejo o luto tão de perto, tão dentro de mim,
já me despedi, sem flores, elas são mais bonitas em qualquer jardim,
vivas como deveriam sempre ser.
    Uns chamariam de cura, mas eu não vejo doença,
sou cego de nascença, sou intenso demais pra perceber o imenso gelo
que agora vai flutuar até ser apenas mar,
sou intenso demais pra não notar o minúsculo floco de neve,
por isso queimo por dentro,
guardei toda solidão e saudade aqui,
no nó da garganta, no arder do peito,
no enfrentar de frente meus medos mais escondidos,
o meu eu mais frágil exposto como quem cai de um penhasco
sem ter onde se segurar e aproveita a queda livre.
    Eu aprendi mais com a tempestade que balança o barco,
do que com a calmaria, mas mereço a leveza de uma mala vazia, de uma mochila nova,
de risadas sinceras, de momentos verdadeiros,
de velas içadas e vento a favor,
eu achei dentro de mim toda a dor guardada,
e tudo confundia minha bússula,
agora cada cicatriz, cada queimadura de Sol me lembra,
pra onde eu quero ir,
com quem quero estar,
o vento ainda pára, mas os braços estão mais fortes pra remar,
sem terra à vista, mas a certeza que as estrelas me orientam,
nas noites mais escuras.
    A tempestade não me tirou tudo,
na verdade me trouxe água limpa pra beber,
fez transbordar meus barris,
cada dia a mais é menos um dia pra chegar ao porto.
    Ainda sou amor intenso como fogo que destrói florestas,
descongela o Ártico, mas dessa vez ao desembarcar vou usar toda essa chama,
pra queimar o barco que me trouxe, o barco que poderia me fazer partir,
dessa vez serei a intensidade de um amor leve,
de um amor que levou tanto tempo perdido no mar,
que escolheu ficar de vez em terra firme.


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