quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O cambaleante

    O cambaleante não sabe onde seu próximo passo vai tocar,
mas ele segue em seu desequilíbrio rumo a algum lugar.
    Eu sempre me perguntei se eu era a flecha,
o alvo ou o arqueiro,
mas aprendi logo cedo que nasci pra ser vento.
Eu sopro a flecha, balanço o alvo, e sou o obstáculo do arqueiro.
    Nunca fui bom em adivinhação,
mas sei o segredo de ler o que não está escrito,
de olhar o que não se pode ver,
de silenciar no exato momento em que deveria dizer.
    Sou do tempo em que aos sábados de manhã alguém entrava numa piscina cheia de cartas
e jogava para o alto os sonhos de alguns,
sempre achei que minha carta seria escolhida,
depois descobri que a carta vencedora sempre esteve na mão de quem me fazia acreditar,
só então de olhos abertos pude ver que já não importa o absurdo,
acreditar sempre é sobre escolher.
    Eu quis vencer um carteado jogando contra um mágico,
eu venci todas as partidas,
contrariando teorias,
ganhei todas as apostas,
mas a ilusão consiste em dar apenas o que se quer receber.
Eu estava embaralhado,
qual carta ganha o jogo?
Qual jogo é jogado?
Estamos jogando?
Se eu sempre venci por que o mágico sorri?
Se não existe mágico, nem baralho, porque estou sozinho aqui?
Consegue entender o que é sempre se sentir embaralhado?
    Conheci a solidão cedo demais,
mas só hoje entendo o que é se sentir só,
a quietude de querer companhia dançando lentamente com a vontade de ficar só.
Mais espaço na cama,
ou mais camas em um curto espaço?
Cinema de mãos dadas,
ou seu nome é com i ou y?
    Não consigo me resumir em um audiobook de 12 minutos,
me perdoe,
eu falo demais,
penso demais,
sou intenso demais,
impulsivo demais,
eu sou demais até para os remédios que eu tomo,
eles tendem sempre a aumentar.
    Venha e escolha uma carta apenas,
o cambaleante segue rumo ao seu objetivo,
mira em uma carta, mas escolhe outra.
O mágico embaralha e pede para o cambaleante apontar uma carta ele mira em uma carta,
mas aponta outra.
O mágico com voz firme esconde seus próprio receio e diz é essa a carta que você escolheu.
O cambaleante acena que não.
Existe o silêncio.
E existe esse momento.
O momento que o mágico admite ser a vida e não um mágico.
O momento em que não importa o quão embaralhadas estão as cartas se o cambaleante não consegue escolher a que quer.
Talvez nem saiba o porquê tenha que escolher.

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